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Coração agradecido

Ontem, participei como artista de outra mostra Sarau de Segunda. Desta vez foi no Laricas Cultural, um espaço de difusão de arte que eu desejava conhecer há muito tempo. Foi muito legal. Mais uma vez, deixei de ser espectador para virar protagonista. 

Enquanto estava lá, com a minha banquinha de exposição, lembrei da Mariana Azambuja, que frequentava com graça e beleza espaços como aquele. Mari foi vencida pela Covid 19 há menos de um ano. Deixou a todos nós perplexos. 

Quando se perde uma pessoa querida, o buraco é enorme. Mas quando se perde pessoas que atuam no coletivo, a perda é quase institucional. A Pandemia fez isso. Destruiu famílias, esburacou relações e demoliu referências.   

Conhecida no mundo das verdades holísticas como Deusa de Mim, ela era terapeuta tântrica, incentivadora do uso de brinquedinhos eróticos e orientadora sexual. Estudava Psicologia. Era meiga, tinha sorriso cativante, fala mansa e abraço de ursa.



Eu era seu cliente eventual de massagens. Às vezes, as conversas eram tão boas que substituíam as massagens. Em um dos nossos encontros, por conta dessas conversas, dei a ela uma camiseta que defendia: “faça chuva, faça sol, faça amor”. Combinava com ela. 

Aprendi a gostar mais de incensos com ela, durante as sessões de massagem. Também pude ficar mais próximo do Tantra com ela, que muitas vezes me provocou a continuar estudando terapias holísticas. Foi minha companhia na imensidão do espaço mágico.

A conheci depois que meus amigos do Tantra Yoga Lab saíram de Campo Grande. Fiquei sem a Vahini, minha primeira terapeuta tântrica, e sem o Ganga e a Raga, professores de meditação, assuntos búdicos e dieta viva (alimentos crus e grãos germinados). 

Era grande a falta que eles faziam porque, em Campo Grande, é difícil entrar nos grupos de agitadores culturais. Quando se é de fora do Estado, como eu, é custoso se enturmar. Mais ainda pelo fato de ter uma atividade profissional diferente da prática artística.

Muita gente não sabe que trabalho com comunicação empresarial. Foi por isso que vim para Mato Grosso do Sul. Quem me conhece do trabalho, enxerga uma personalidade. Quem me conhece da arte ou dos estudos (sim, eu ainda estudo), vê outro figurante.

Ao descobrir a Mariana, ganhei terapia tântrica, amizade e incentivo para criar. Ao acompanhar seu universo underground pelas mídias sociais, passei a reconhecer novas possibilidades em Campão. E novos desafios pessoais. 

Tem gente com especial competência para agitar coletivamente. Ela era uma dessas pessoas. Promovia encontros de meditação ativa, cursos de massagem e rituais de inspiração ancestral na mata. De quebra, praticava religiões de matriz africana.

Como ela era o elo de ligação entre muitos grupos, suponho que sua partida paralisou outras dinâmicas de renovação. Fui salvo pelos estudos decoloniais, artísticos e de patrimônio, fazendo contato com os meus amigos no mundo acadêmico.

Acontece que no Sarau de Segunda do Laricas Cultural, recuperei de fato a possibilidade de encontrar aquela gente ativa e produtora de significados que a Mari me mostrava. As pessoas vão lá para conversar, cantar, curtir e fazer sentido. 

Muitos devem ter essa vida dupla, como eu. De dia na faculdade ou no trabalho, ou nos dois. Nos finais de semana e nas noites, na vida underground, significando fora dos padrões comerciais e dos modismos

Ontem, me inserindo ainda mais no universo de cultura de Campão, senti reconhecimento pelas minhas cores, dando um passo importante no trajeto pessoal. Faltou a Mariana para acompanhar essa parte da jornada. De algum lugar ela deve estar vendo.

Faço votos para que a Deusa de Mim (de Nós), fique bem onde quer que esteja. E, se sentir este texto, saiba que agora sou protagonista de novas possibilidades, com olhos no futuro e o coração agradecido a ela. Mariana Azambuja presente!

Maurício Cintrão

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