Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de maio, 2023

Dançar pode ser

  Dançar é mais do que movimentar o corpo. No meu caso é movimentar um caminhão cheio de memórias endiabradas. É uma verdadeira mudança de casa dentro de uma coqueteleira gigante. Onde quer que eu vá dançar, levo toda a história de traumas, vergonhas e assombros. Nesses momentos, sou o cenógrafo do meu drama. Levo tudo empacotado: cenário, iluminação, trilha sonora e fumacinha. Mas chega tudo bagunçado. Mesmo que eu não vá. A simples perspectiva de ir desarranja tudo. E provoca uma série de reações que resseca minhas juntas, envenena meu quadril e desequilibra meu centro. Beber duas ou três doses de álcool etílico sempre foi uma forma de enfrentar o medo. Li em algum lugar que deus inventou o álcool como lubrificante social. O problema é que depois do segundo whisky (ou cuba libre, ou cachaça com guavira, ou...) eu perco o controle. E a dança vira luta livre com cotoveladas, pisões nos pés, bundadas e outros. Eu tenho consciência de que isso não pode continuar. Já ensaiei div...

Novo patamar

  Estou no durante. É um processo de transformação. Mesmo que pareça, entretanto, não implica em metamorfoses colossais. Não virei monstro, ou fada do dente. Estou um ser humano buscador de possibilidades. Saí da fase de tentativa e erro e migrei para o universo do “isso eu ainda não conhecia”. É excitante, é desafiador e é de dar medo, muito medo. Porque as grandes mudanças começam pequenininhas, despretensiosas, e viram furacões na vida das pessoas. De repente, você vira indígena, mago, ancestral de muitos, mestre. As descobertas essenciais mudam o lugar da gente no mundo. E a gente muda junto. Ao ultrapassar uma barreira do medo e do trauma, você floresce, gera luz. Com isso, passa a ocupar um lugar diferente para você e para as pessoas. Vira referência. Senta em uma poltrona destinada a quem chegou até ali. E não espere conforto. Alcançar aquele nível é ampliar o espectro de ameaças e riscos. Toda evolução descompensa. É um toma lá dá cá o tempo todo. A vida não tem inter...

Dança dos sobreviventes

Dança dos sobreviventes Olhar casais bailarinos dançando me encanta.   Pensar em entrar em um curso de dança me aterroriza. Ainda vou descobrir porque tenho tanta dificuldade com a dança. Fui percussionista. Sou bom de ritmo. Tenho bom gosto para a música. Mas fico todo duro quando a proposta é dançar. É histórico, é milenar. Só não é ancestral. Meus pais gostavam de dançar. Entre meus irmãos, acho que só eu não danço. Tenho um livro de crônicas em que narro essa dificuldade. Chama-se “O gordinho e a menina de rosa”. O caso é que surgiu uma vivência de dança terapia e consciência corporal no final de semana. Resolvi ir.   Não foi à toa. Minha terapeuta (que tem psique dançarina) sapecou um Guimarães Rosa diante das minhas dúvidas. A vida, disse ela, quer da gente é coragem. (“ O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Grande Sertão: Veredas.) Fui com medo,...