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Mostrando postagens de junho, 2023

Dança da pedra lascada

  Nasce do chão, como a planta, como a vida. Floresce a partir da base de todos nós. O exercício sugere crescer, levantar, assentar nos dois pés. Por isso começamos a prática deitados. Sentimos nossos corpos relaxando, apoiados no piso de tacos. Os únicos lugares em que deito no chão são as salas de dança terapia. A professora que é psicóloga, e terapeuta, e dançarina (e mandona) comanda nossos despertares. É rigorosa e observadora. Mas se emociona ao notar aqui e ali novos processos evolutivos. Somos cobaias de nós mesmos. Experimentamos movimentos. Provamos nossas limitações. Experienciamos novas possibilidades. Somos degustadores de nossos remédios e nossos venenos. Dói tudo. Dói até o que não existe. Dor é descoberta. “Movimentem as articulações, movimentem assim e assim”. O dia em que eu tiver a flexibilidade da dançopeuta eu serei um malabarista. Acho que nunca vou chegar lá. Mas me esforço tanto que tenho a sensação de evoluir milhões de anos. Sou um neandertal tun...

Alma crepom

  O papel crepom conversa com o corpo contraído. E revela movimentos que se desenvolvem ao som do Bolero, de Ravel. Nesses momentos, viver é dançar. E quem estava naquela sala buscava outro jeito de estar, dançando. A dança terapia é curiosa. Revela o que dilacera simultaneamente em que faz surgir identificação, reconhecimento e paz. Aos poucos, enxergamos uns nos outros e uns aos outros a partir de ângulos diferentes. É o remanescente da cultura do silêncio. Avançamos pelos universos interiores. Sentados, deitados ou em pé, estamos entregues a movimentos improvisados. Alguns estão com os olhos fechados, outros de olhos abertos, no transe da combinação da música com a fricção do papel dançador pela pele. Há quem volte à infância com um material tão comum nas festas de escola. E sem roteiro, dançamos nossos traumas com papel crepom. No varal imaginário da sala de dança terapia são dependuradas gravuras pouco nítidas, mas assustadoras. As couraças de caráter se desfazem com o c...

Ensinando a nadar

  A moça enfrenta seus medos e dança feito bailarina de porta joias. Não precisa dar corda, nem abrir a caixinha de música. O diamante é ela. Baila com leveza sobre o estojo de preciosidades. Os adornos aguardam silenciosos enquanto a mulher interpreta a si mesma. Ela é a mais rica de todos os brilhantes. A música sugere o girar, girar, girar. E a desbravadora da beleza oferece movimentos graciosos a quem quiser olhar.   E mesmo que não olhem; ela dança sem espelhos. É tudo improviso, como o sorriso que escapa e a timidez que revela. Dançar também tem disso. Nem tudo é pensado para agradar o outro. Flui, escorre, limpa. No chão frio de tacos da escola de dança a menina diamante revela orgulhosa sua mais recente conquista: ela mesma. Como é bonita a mulher que enfrenta suas tempestades. Passeia imune entre relâmpagos e vendavais. Toda mulher deveria conhecer esse fluir emocionante. Os olhos marejam diante do bailado que parece de sonho, quase de fantasia. Mas não tem nada d...

O Pantanal virou sertão

  O balanço das ondas encanta meus sonhos desde que lembro do sonhar. Antes de descobrir o mergulhar, aprendi a balançar em barcos, lanchas comerciais e ferry boats. Quem é das águas sabe o que é isso. A vida nas marolas é parte de quem circula pelo mar, pelos rios, pelos lagos, pelo Pantanal. Mas existe um outro balanço que nos faz flutuar e esse depende do ar, da terra e do sonhar. É o balanço da dança, que faz da vida uma festa, um carnaval de alegria. E foi nesse remelexo que descobri com quantos bailarinos se tece um sonho. Feito os galos de João Cabral de Mello Neto, na coreografia dos aprendizados, um dançarino sozinho não faz a manhã. E a manhã se fez à noite no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande. Cinquenta alunos da Luminis Escola de Dança (um grupo de graciosos dançarinos de várias idades), sete professores e mais uma equipe de fiéis escudeiros, deram corpo à sua versão de Cordel Encantado. Foram 14 atos graciosamente dispostos ao longo de quase duas horas, misturan...

O amanhecer machuca

  Tem dia em que o amanhecer machuca. É a ressaca dos bons sonhos. É mal estar dos pesadelos passados. É no amanhecer que a gente desperta. E realiza o que é real e sem graça. Falta alguém com quem trocar sentimentos. Falta o cheiro de mulher impregnado no rosto. Falta sentido para muita coisa. Mas o amanhecer machuca por muito mais do que isso. Acordar com o Sol é antecipar as irritações do que virá. Faz-se o retrospecto do que não deu certo ontem e projetam-se os incômodos dali para a frente. Não é falta de dinheiro, porque a essa a gente acostuma. É falta de acolhimento, que é de graça, mas não é. O bocejo lembra que esqueci de comprar pó de café. Acho que ainda tem café solúvel, mas não é a mesma coisa. Feito amor solitário; resolve, mas nem sempre completa. O café e o amor são melhores se chegam por completo, quentes e perfumados. Amar sem perfume é tomar café em dia de resfriado; sem paladar, sem fragrância. O amanhecer machuca porque falta muita coisa. Falta perspectiva,...

Chegou a hora da faxina

Chegou a hora da faxina No processo de desobstrução das minhas veias bailarinas vou descobrindo velhos sentimentos que pareciam ter feito parte de algum sonho, de alguma ilusão. Não, eles estão aqui comigo, como os medos de infância e os nãos da vida. São reais, vividos, mas reprimidos. Ao mobilizar o corpo na dançaterapia, obrigo as memórias musculares a renascerem. Voltam no corpo, pelo corpo, com o corpo. São mais do que rememorações. São sensações emocionais que ultrapassam as classificações do sentir cotidiano. A cada percepção despertada surgem outras sensações, que despertam mais impressões e que produzem espantos, maravilhamentos, assombros e emoções. O corpo é um gravador das experiências vividas que esconde um repositório de afetos. O movimentar fora do padrão da dança provocada deflagra em mim um processo de limpeza pela reflexão. Descubro que o organismo vivo, antes de mais nada, é um amontoado de mortes. Perdas acumuladas, decepções empilhadas, frustrações sobrepos...