Tenho me desafiado a participar de eventos públicos de arte
e cultura para fazer contatos, conhecer pessoas, ver e ser visto. Vender minha
arte é pano de fundo para um processo que estou experimentando. Foi por isso
que estive no Sarau de Segunda, em Campo Grande, MS, onde encontrei aquele
casal. Estou me testando em ambiente real. E comunicando, o que sempre desejei.
Produzir arte (ou artesanato, insistem os acadêmicos) é
comunicar alguma coisa: beleza, feiura, protesto, crítica, elogio, paixão,
tristeza... Criar é um ato solitário, mas envolve projetar reações. Vem daí o
exercício de imaginar as respostas das pessoas. Presenciar o olhar daquela moça
sobre os meus prendedores foi o prêmio por essa solidão colorida. Deu sentido
ao meu trabalho.
O olhar daquela moça se assemelhou a um comentário agradável
depois da leitura de um texto meu. Produzir crônicas (como pintar prendedores)
é escrever cartas para destinatários desconhecidos. Feito lançar ao mar
mensagens em garrafas. Um dia alguém vai encontrar, abrir e ler. E o ciclo se
completará com uma emoção, um pouco caso ou um desprezo. Para isso escrevo e
pinto, modelo e confecciono meus sonhos, desejos e vícios.
Em que medida a vaidade (se é que é vaidade) atrapalha esse
processo? É uma pergunta curiosa para me fazer a esta altura da vida. Sempre
considerei pedante o excesso de orgulho pessoal. Quase sempre disfarcei o que
sentia diante de um elogio ou de um cumprimento pelo que produzo. Considerava
esse comportamento um reflexo da timidez. Mas, hoje, tenho dúvidas sobre isso.
A vida foi ensinando que o meu medo de chamar atenção é
maior do que a vergonha de ser notado. Ou melhor, prefiro surpreender a
frustrar expectativas. Se não chamo atenção, posso trabalhar em reservado,
quase oculto. Se der certo, tudo bem. Se der errado, não desaponto ninguém.
Fico bege, feito lingerie de vó ou parede de recepção.
Porém, ser confundido com uma parede não é especialmente
emocionante. Ao contrário, é muito sem graça. Não ser notado pode ajudar uma ou
duas vezes, mas vai acabar atrapalhando quando o que penso ou sinto precisa ser
revelado. Não tem como produzir obras que seduzam os sentidos das pessoas sendo
bege e recolhido. Não tem como ser discreto e invisível estando vivo. O
ensinamento é nada lisonjeiro. Me esconder não é lisonjeiro. É hora de buscar
as feiras, as mostras, os encontros e me expor com todas as cores.
Enfim, a moça escolheu dois jogos de prendedores: um para
ela, outro para ele. Depois de muitas hesitações deliciosas, devo destacar. E
ele pagou, sem que ela percebesse. No momento em que ela entendeu, já era tarde,
conformando-se com o presente. Riram e foram embora. Fiquei devendo embalagens
para acondicionar os prendedores.
Na próxima feira, preciso levar saquinhos ou envelopes para
empacotar minhas obras. E para guardar sentimentos tão lindos como aqueles. Não
tem como ser bege diante de cenas como aquelas, da moça e do moço seguindo seu
caminho na noite de Lua crescente, ensaiando a madrugada. O que seria dos
artistas sem a reação do público? O que seria das avós se não houvesse
lingeries multicores?
No próximo sábado tem outra feira e outras possibilidades de
exibição sem vaidade, mas com orgulho, com muito orgulho de estar vivo.

Gostei muito! "Saquinhos e envelopes para guardar sentimentos" - me deu uma ideia para trabalhar com meus alunos!
ResponderExcluirLendo seu texto cheguei à conclusão que tenho sido uma pessoa "bege". Preciso colocar um pouco mais de cor na minha vida.