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Lingerie de vó


A moça olhava os prendedores decorados com olhos curiosos, claramente encantada. Ela não sabia qual deles escolher, mostrando uma lisonjeira indecisão. “São tão lindos!”, dizia. O amigo também estava atraído pelo colorido do meu trabalho. Em silêncio, eu agradecia. Aquela talvez fosse a maior recompensa pela criação. Quando produzo esses prendedores, sonho com o deslumbramento de quem vai ver. Seria vaidade? E se for? Seria inadequado?

Tenho me desafiado a participar de eventos públicos de arte e cultura para fazer contatos, conhecer pessoas, ver e ser visto. Vender minha arte é pano de fundo para um processo que estou experimentando. Foi por isso que estive no Sarau de Segunda, em Campo Grande, MS, onde encontrei aquele casal. Estou me testando em ambiente real. E comunicando, o que sempre desejei.

Produzir arte (ou artesanato, insistem os acadêmicos) é comunicar alguma coisa: beleza, feiura, protesto, crítica, elogio, paixão, tristeza... Criar é um ato solitário, mas envolve projetar reações. Vem daí o exercício de imaginar as respostas das pessoas. Presenciar o olhar daquela moça sobre os meus prendedores foi o prêmio por essa solidão colorida. Deu sentido ao meu trabalho.

O olhar daquela moça se assemelhou a um comentário agradável depois da leitura de um texto meu. Produzir crônicas (como pintar prendedores) é escrever cartas para destinatários desconhecidos. Feito lançar ao mar mensagens em garrafas. Um dia alguém vai encontrar, abrir e ler. E o ciclo se completará com uma emoção, um pouco caso ou um desprezo. Para isso escrevo e pinto, modelo e confecciono meus sonhos, desejos e vícios.

Em que medida a vaidade (se é que é vaidade) atrapalha esse processo? É uma pergunta curiosa para me fazer a esta altura da vida. Sempre considerei pedante o excesso de orgulho pessoal. Quase sempre disfarcei o que sentia diante de um elogio ou de um cumprimento pelo que produzo. Considerava esse comportamento um reflexo da timidez. Mas, hoje, tenho dúvidas sobre isso.

A vida foi ensinando que o meu medo de chamar atenção é maior do que a vergonha de ser notado. Ou melhor, prefiro surpreender a frustrar expectativas. Se não chamo atenção, posso trabalhar em reservado, quase oculto. Se der certo, tudo bem. Se der errado, não desaponto ninguém. Fico bege, feito lingerie de vó ou parede de recepção.

Porém, ser confundido com uma parede não é especialmente emocionante. Ao contrário, é muito sem graça. Não ser notado pode ajudar uma ou duas vezes, mas vai acabar atrapalhando quando o que penso ou sinto precisa ser revelado. Não tem como produzir obras que seduzam os sentidos das pessoas sendo bege e recolhido. Não tem como ser discreto e invisível estando vivo. O ensinamento é nada lisonjeiro. Me esconder não é lisonjeiro. É hora de buscar as feiras, as mostras, os encontros e me expor com todas as cores.

Enfim, a moça escolheu dois jogos de prendedores: um para ela, outro para ele. Depois de muitas hesitações deliciosas, devo destacar. E ele pagou, sem que ela percebesse. No momento em que ela entendeu, já era tarde, conformando-se com o presente. Riram e foram embora. Fiquei devendo embalagens para acondicionar os prendedores.

Na próxima feira, preciso levar saquinhos ou envelopes para empacotar minhas obras. E para guardar sentimentos tão lindos como aqueles. Não tem como ser bege diante de cenas como aquelas, da moça e do moço seguindo seu caminho na noite de Lua crescente, ensaiando a madrugada. O que seria dos artistas sem a reação do público? O que seria das avós se não houvesse lingeries multicores?

No próximo sábado tem outra feira e outras possibilidades de exibição sem vaidade, mas com orgulho, com muito orgulho de estar vivo.

 Maurício Cintrão 

Comentários

  1. Gostei muito! "Saquinhos e envelopes para guardar sentimentos" - me deu uma ideia para trabalhar com meus alunos!
    Lendo seu texto cheguei à conclusão que tenho sido uma pessoa "bege". Preciso colocar um pouco mais de cor na minha vida.

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