Procuro olhares. Olhares que fazem carinho, que afagam, que encantam. Como o que recebi da mulher loira na entrada do Mercadão, domingo pela manhã. Ela comia pastel com um parceiro. Ele estava de costas, não me viu. Mas ela viu, sim. E notou que percebi. Assustada, desviou os olhos. Mas voltou a me olhar. Talvez tenha visto mais do que eu mesmo reconheço mostrar.
É tão bom ser olhado assim. É um presente, é um carinho. Mesmo
que não tenha sido essa a intenção. Muitas pessoas ignoram o efeito do próprio
olhar. Olham disfarçadamente, como a loira do Mercadão, e nem notam que abriram
o próprio coração. Quase sorri para ela. Mas acho que seria invasivo.
Há pessoas que olham mesmo, com gosto (ou com intenção de
mostrar que olham). Em alguns casos são agressivas. Mulheres comumente são
assediadas assim. Sabem direitinho qual é o olhar violador, desrespeitoso, que
mede e julga. Mas nem sempre o olhar incisivo é violento. Existem olhares
interessados que são só isso, interessados e pronto.
Os sabidinhos usam o poder do olhar. Mas tem observadores
que não compreendem que o olhar envia mensagens. Tão pouco percebem que
declaram intenções, desejos e julgamentos enquanto miram alguém. Tem pessoas que
até olham sem perceber. De quando em quando, vivem olhares de fuga: estão, na
verdade, desviando o olhar e dão com os olhos nos seus olhos.
O que será que a loira do Mercadão viu em mim? Será que
pareci tão interessante assim? Eu não me enxergo bonitão-gostosão. Mas o olhar
dela era do tipo “ui!”. Ela reconheceu que viu alguém interessante em mim. Não
se oferecia, apenas olhava admirada (e meio sem jeito). Eu teria sido para aquela
mulher um exemplo do homem que ela procura?
Não sou do tipo atlético, nem busco causar boa impressão.
Sou um sujeito comum, coroa, de bermuda, camiseta e tênis. Não me visto, nem me
comporto como os homens da minha idade. Sou arte educador, artista visual e
jornalista. Faço oficinas de arte com crianças. Crio artesanato. Escrevo
crônicas. Mostro meu trabalho em feiras e exposições comunitárias.
Por conta disso, talvez eu me apresente ao mundo em uma aura
alternativa de viver. Por certo, sou meio alternativo. Dirijo boa parte da
minha energia para compreender o mundo de forma diferente. Dou atenção para
causas e questões coletivas. Participo de grupos de estudo sobre desigualdade
social, ancestralidade, espiritualidade.
Poxa, eu voltei a fazer terapia, caramba! Isso deve fazer
muita diferença... Será que isso aparece junto comigo? Certa vez escrevi que eu
sou aquilo que não deixo que façam comigo. Sou reflexo das minhas escolhas. Vai
ver, ser assim pode interessar às loiras que comem pastel no Mercadão aos
domingos de manhã.
Pelo visto (ou pela olhada), sim.
Maurício Cintrão
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