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Dança dos sobreviventes

Dança dos sobreviventes

Olhar casais bailarinos dançando me encanta.  Pensar em entrar em um curso de dança me aterroriza. Ainda vou descobrir porque tenho tanta dificuldade com a dança. Fui percussionista. Sou bom de ritmo. Tenho bom gosto para a música. Mas fico todo duro quando a proposta é dançar. É histórico, é milenar.

Só não é ancestral. Meus pais gostavam de dançar. Entre meus irmãos, acho que só eu não danço. Tenho um livro de crônicas em que narro essa dificuldade. Chama-se “O gordinho e a menina de rosa”.

O caso é que surgiu uma vivência de dança terapia e consciência corporal no final de semana. Resolvi ir.  Não foi à toa. Minha terapeuta (que tem psique dançarina) sapecou um Guimarães Rosa diante das minhas dúvidas.

A vida, disse ela, quer da gente é coragem. (“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Grande Sertão: Veredas.)

Fui com medo, mas fui. E conheci um lugar de atmosfera mágica.  A Estância das Orquídeas, um recanto encaixado entre mata e paisagismo, três quilômetros de estrada de terra adentro.


O espaço de 3 mil metros quadrados integrados é muito utilizado para festas de casamento. Quem chega, bate os olhos na árvore que abriga as cerimônias e logo pensa em casar. Não deixou de ser um lugar de parceiras.

O meu eu medroso conheceu pessoas incríveis que demoliram minhas barreiras sem dó. Gente que não estava para exercitar a humilhação recreativa. Pessoas vivas. Criaturas com traumas, travas e tarraxas como eu.

Umas chegaram com dificuldades para dançar. Outras, tinham apuro para viver (apesar de dançarem). Uma ou outra viviam questões nada estéticas para superar. Um magote de sobreviventes sem coreografia. Náufragos como eu.

Mergulhei nessa experiência na inconfundível viagem para dentro. Começando pela confissão coletiva de dores no corpo. Todos, sem exceção, substituiriam juntas, vértebras e encaixes se pudessem. Dores crônicas não faltavam.

Na sequência, redescobrimos o andar, o parar e o articular. Caminhamos feito almas passeadeiras para lá e para cá. Primeiro com os pés virados para fora, depois, com os pés virados para dentro, corpo inclinado para a frente, corpo inclinado para trás.

Até que chegou no encaixe de quadril... Meu espírito bailador conheceu o engate de todos os engates (ou desengate). Parados, sem dobrar os joelhos e sem mexer o tronco, tínhamos que movimentar a pélvis, só ela. 

Até agora, 48 horas depois da experimentação, ainda sinto dores na lombar. Não só nela, aliás; no corpo todo. Bailar significa reforçar o estoque de analgésicos, fortalecer os músculos e redescobrir o corpo.

Depois veio a dança terapia, com umas fitinhas coloridas, singelas mas dificílimas de controlar. Era para fazê-las dançarem no ar, nos corpos e na dúvida. Com olhos abertos, você copia a coleguinha. Mas de olhos fechados....

O equilíbrio representa a primeira baixa. Quase caí algumas vezes. Com a prática, fui ganhando confiança (e recuperando o equilíbrio). Na sequência virei um virtuose da tirinha. Já estava até coreografando.

Encerramos com a construção de uma rede entre nós. Ninguém vive sozinho. E um novelo de lã vermelha permitiu que novas conexões sanguíneas se estabelecessem entre os participantes.

Terminamos com um grande abraço coletivo e enredado em lã sob a sombra da árvore dos casamentos. Um lugar de reflexão, cumplicidade e renascimento. Ainda não perdi o medo, mas peguei gosto na dança dos sobreviventes.

foto:@marcoendofotografia

Luz para os professores Cristiele, Thiago, Luiz e Juliano. Luz, Ana!

Gratidão a todos que estavam lá.

Quero mais!

Maurício Cintrão

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