Estou no durante. É um
processo de transformação. Mesmo que pareça, entretanto, não implica em
metamorfoses colossais. Não virei monstro, ou fada do dente. Estou um ser
humano buscador de possibilidades. Saí da fase de tentativa e erro e migrei
para o universo do “isso eu ainda não conhecia”.
É excitante, é
desafiador e é de dar medo, muito medo. Porque as grandes mudanças começam
pequenininhas, despretensiosas, e viram furacões na vida das pessoas. De
repente, você vira indígena, mago, ancestral de muitos, mestre. As descobertas
essenciais mudam o lugar da gente no mundo. E a gente muda junto.
Ao ultrapassar uma
barreira do medo e do trauma, você floresce, gera luz. Com isso, passa a ocupar
um lugar diferente para você e para as pessoas. Vira referência. Senta em uma
poltrona destinada a quem chegou até ali. E não espere conforto. Alcançar
aquele nível é ampliar o espectro de ameaças e riscos.
Toda evolução
descompensa. É um toma lá dá cá o tempo todo. A vida não tem interesse em
ganhar prestígio. E nem quer saber do seu maior ou menor prestígio. Vida requer
resultados. Nada que lembre aquela ideologia voraz das corporações, de
meritocracia, metas, missões e valores. Isso é engana conversa de chefete.
Resultar na vida
significa evoluir, mudar de plano, avançar, progredir. Às vezes com pouco
dinheiro, nenhuma compensação e danos de imagem irreparáveis. Marketing pessoal
não combina com evolução espiritual. Se estiver combinando é porque a
mercadologia falhou ou você é uma grande farsa, o que é a mesma coisa.
Mas eu falava que
estou no durante, em transformação. Isso pode representar uma enorme
insegurança. Gera intranquilidade para quem segue na caminhada ao seu lado,
atrás ou à frente. Adversários endurecem a concorrência. Parceiros desconfiam
ou ficam com ciúmes. E os ex, ah, os ex, esses já ficaram para trás mesmo.
Uma das virtudes da
transmudação é a possibilidade de revisitar o passado e resignificar o residual
do que se viveu. Talvez por isso algumas pessoas caiam na tentação de voltar a
um ex-amor, a um(a) ex-amante, a um(a) ex-qualquer coisa. Dá saudadinha, aquela
coceirinha que é gostosa e vira irritação de pele.
Assim, não pense que
tudo é primavera. Mudar significa abrir mão do que não pode seguir junto,
desistir de algumas ambições e estabelecer novas prioridades. As escolhas
também mudam. O gosto modifica. A piada perde a graça. Nesse pacote, o amor
desvanece, o tesão esmorece e a alegria acaba. E abrem-se os espaços para novas
possibilidades do viver.
Vai florescer. Vai
frutificar. Vai gerar amor, tesão, alegria e novos projetos. Até lá, é preciso
paciência. Porque a dinâmica do viver ensina: começo, meio e fim; antes,
durante e depois. Porque, como cantava a Rita Lee: “tudo vira bosta!”. Até se
chegar ao próximo patamar.
Maurício Cintrão

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