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Alma crepom

 

O papel crepom conversa com o corpo contraído. E revela movimentos que se desenvolvem ao som do Bolero, de Ravel. Nesses momentos, viver é dançar. E quem estava naquela sala buscava outro jeito de estar, dançando.

A dança terapia é curiosa. Revela o que dilacera simultaneamente em que faz surgir identificação, reconhecimento e paz. Aos poucos, enxergamos uns nos outros e uns aos outros a partir de ângulos diferentes. É o remanescente da cultura do silêncio.

Avançamos pelos universos interiores. Sentados, deitados ou em pé, estamos entregues a movimentos improvisados. Alguns estão com os olhos fechados, outros de olhos abertos, no transe da combinação da música com a fricção do papel dançador pela pele.

Há quem volte à infância com um material tão comum nas festas de escola. E sem roteiro, dançamos nossos traumas com papel crepom. No varal imaginário da sala de dança terapia são dependuradas gravuras pouco nítidas, mas assustadoras.

As couraças de caráter se desfazem com o crepom. Barreiras vão sendo seduzidas pelo atrito da folha enrugada nas lembranças. E os corpos contraídos pelas pressões das memórias indesejáveis ganham elasticidade com a dança catártica.

Para evoluir em todo e qualquer processo terapêutico é preciso haver entrega. Mas na dança terapia, a evolução é se lançar do precipício. E a cada salto, riscos espetaculares ensinam a voar. O pássaro da liberdade é exigente, porém generoso.

As sessões parecem encurtar na medida em que o corpo e a mente viajam. O reencontro transformador com as memórias doloridas suga os minutos. Conquistamos nossos passados com higienização dos cronômetros. O tic tac dançarino subverte ponteiros e ampulhetas.

No espetáculo Cordel Encantado dos alunos da Luminis Escola de Dança, o professor destacou para a plateia: “Nossos alunos são pessoas reais, como vocês”. E cada vez mais estou me sentindo naquele palco, não como estrela, mas como protagonista do meu assombro.

Várias folhas de crepom foram desfeitas ao final das lutas travadas entre música e corpo. Mas muitos corpos saíram da sessão bem menos enrugados do que chegaram. Minha alma crepom desenhou novas possibilidades no infinito.

Maurício Cintrão

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