Chegou a hora da faxina
No processo de
desobstrução das minhas veias bailarinas vou descobrindo velhos sentimentos que
pareciam ter feito parte de algum sonho, de alguma ilusão. Não, eles estão aqui
comigo, como os medos de infância e os nãos da vida. São reais, vividos, mas
reprimidos.
Ao mobilizar o corpo
na dançaterapia, obrigo as memórias musculares a renascerem. Voltam no corpo,
pelo corpo, com o corpo. São mais do que rememorações. São sensações emocionais
que ultrapassam as classificações do sentir cotidiano.
A cada percepção
despertada surgem outras sensações, que despertam mais impressões e que produzem
espantos, maravilhamentos, assombros e emoções. O corpo é um gravador das
experiências vividas que esconde um repositório de afetos.
O movimentar fora do
padrão da dança provocada deflagra em mim um processo de limpeza pela reflexão.
Descubro que o organismo vivo, antes de mais nada, é um amontoado de mortes. Perdas
acumuladas, decepções empilhadas, frustrações sobrepostas.
Ao lançar os braços em direção ao nada, faço brotarem consciências que desconhecia. Vão surgindo mensagens gravadas no memoria da negação. Repousa tudo lá, guardadinho nos músculos que se atrofiam, endurecem e matam os movimentos. Até que o gesto geste.
A música sugere, indica,
aponta, mas é o aceno ao passado que mobiliza as energias que destroem as
proibições. Sem o som seria muito mais difícil. A harmonia das notas induz à
dinâmica ancestral de reconciliação entre corpo, mente e espírito.
Ao gingar e balançar
ao sabor da intuição, vou desencarcerando aquilo que aprendi a esconder. Vou
abrindo páginas de livros proibidos das estantes do porão. Mexo e recobro todas
as danças que ficaram impugnadas pela colonialidade do sentir.
É importante isso. A
colonialidade nos ensina a funcionar conforme as regras impostas pelo
colonizador. O mesmo europeu que invadiu esta terras e impôs suas condições
para nossa sobrevivência é o algoz dos nossos sentimentos.
Dançar é o limite
máximo das proibições. O que é afro, indígena e não branco está fora dos
limites. A censura aos corpos é parte indissociável da colonialidade. Proibe o
movimento livre, o gestual espontâneo e a naturalidade das sensações. Tudo é
proibido, tudo negado, tudo precisa ser encoberto, vestido.
Giro, me abaixo, deito
e rolo no piso da sala forrada com tacos. O lugar dos ensaios coreográficos da
escola de dança se transforma em plataforma de lançamentos. Solto meus monstros
ao universo e exijo a retomada dos meus territórios.
Dançar é dizer não às
ideias limitantes de do modelo hegemônico branco, cristão e subserviente. É
desrespeitar o suposto poder maior de algum deus. Prefiro o politeísmo dos
indígenas e afrodescendentes, que ensinam a humanidade do sagrado.
Meu corpo é a casa das
divindades que guarda minha alma. Chegou a hora da fazer faxina.
Axé! Ahow! Viva!

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