Nasce do chão, como a
planta, como a vida. Floresce a partir da base de todos nós. O exercício sugere
crescer, levantar, assentar nos dois pés. Por isso começamos a prática
deitados. Sentimos nossos corpos relaxando, apoiados no piso de tacos.
Os únicos lugares em
que deito no chão são as salas de dança terapia. A professora que é psicóloga,
e terapeuta, e dançarina (e mandona) comanda nossos despertares. É rigorosa e
observadora. Mas se emociona ao notar aqui e ali novos processos evolutivos.
Somos cobaias de nós
mesmos. Experimentamos movimentos. Provamos nossas limitações. Experienciamos novas
possibilidades. Somos degustadores de nossos remédios e nossos venenos. Dói
tudo. Dói até o que não existe. Dor é descoberta.
“Movimentem as
articulações, movimentem assim e assim”. O dia em que eu tiver a flexibilidade
da dançopeuta eu serei um malabarista. Acho que nunca vou chegar lá. Mas me
esforço tanto que tenho a sensação de evoluir milhões de anos.
Sou um neandertal tunado.
Pegaram a carcaça e algumas peças avulsas e construíram um sujeito pós-histórico.
Ainda reajo instintivamente, como se um tigre-dentes-de-sabre fosse sair do
banheiro. É essa musculatura contraída que desafia meus passos iniciantes.
Na dança, a gente
resgata o mamute congelado do coração. Ressurgem os traumas, as tristezas, os
medos, as saudades e as amputações; os pedaços de nós. “Oh, pedaço de mim, oh
metade afastada de mim” lembra Chico.
Dançar é provocar a musculatura esquecida.
E na medida em que o
corpo enfrenta sua batalha, o cérebro reprocessa imagens, sons, perfumes e
ausências. E muitos daqueles que estão ao meu lado se esforçando em gestos e
volteios, lembram da vida que não foi vivida ainda. Somos arqueólogos à cata do
futuro.
Esse exercício
coletivo, de praticar a desencarnação dos males, é um dos mais potentes
elixires libertadores da alma. Não há uma sessão em que um (ou vários) de nós
não recupere algum pedaço extraviado. É um cerimonial de resgates.
É nesse processo que
vamos construindo o autoconhecimento. Nem tenho muita coragem de olhar minha
imagem no espelho. Porque a sensação é de aquele cara lá, do outro lado do
vidro, é outra pessoa, que desconheço.
Às vezes, tenho a impressão
de que estamos no reflexo, eu e muitos dos meus que sequer conheço. Pessoas de
diversas épocas e idades, que passaram por este viver antes de mim. É como se
eu fizesse parte de uma legião de precursores.
A dança terapia é
isso. Parece o resgate de uma cerimônia ancestral. A sacerdotisa evoca os
antepassados nos suaves movimentos dos corpos de agora. Reanima com seu
conhecimento os antepassados que sobreviveram em nossas células. E crescemos.
Por alguns momentos,
somos dançarinos da pedra lascada.
Maurício Cintrão
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