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O amanhecer machuca

 

Tem dia em que o amanhecer machuca. É a ressaca dos bons sonhos. É mal estar dos pesadelos passados. É no amanhecer que a gente desperta. E realiza o que é real e sem graça. Falta alguém com quem trocar sentimentos. Falta o cheiro de mulher impregnado no rosto. Falta sentido para muita coisa.

Mas o amanhecer machuca por muito mais do que isso. Acordar com o Sol é antecipar as irritações do que virá. Faz-se o retrospecto do que não deu certo ontem e projetam-se os incômodos dali para a frente. Não é falta de dinheiro, porque a essa a gente acostuma. É falta de acolhimento, que é de graça, mas não é.

O bocejo lembra que esqueci de comprar pó de café. Acho que ainda tem café solúvel, mas não é a mesma coisa. Feito amor solitário; resolve, mas nem sempre completa. O café e o amor são melhores se chegam por completo, quentes e perfumados. Amar sem perfume é tomar café em dia de resfriado; sem paladar, sem fragrância.

O amanhecer machuca porque falta muita coisa. Falta perspectiva, falta reconhecimento, falta incentivo, falta sentido. Falta até a dor do desengano, que machuca, mas está presente. Não tem indecisão no desamor. É ou não é. A construção corrente é um contínuo de possibilidades. Amar também é. Na falta de amor, falta conexão.

De tanto desconstruir ideias e conceitos, fica-se incompleto. Como aquela obra de viaduto que liga nada a lugar nenhum. Ou você refaz as bases e avança em direção a um outro destino, ou vira depósito de entulho. E dói onde nem imaginava que existisse dor. Tem partes do corpo que só se apresentam pela falta de uso.

Machuca muito o amanhecer se vier tranquilo, sem desafio, sem dúvidas. Acordo e logo lembro que falta querer para prosseguir. É um vazio que se avoluma com o abandono. Ninguém provoca, ninguém deseja. A compreensão dos dilemas alheios cria uma anestesia estranha que amortece os próprios desejos.

Mas amanhece e a vida segue seu curso, com ou sem machucados.

 

Maurício Cintrão

mauricio.cintrao@gmail.com

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