O balanço das ondas encanta meus sonhos desde que lembro do sonhar.
Antes de descobrir o mergulhar, aprendi a balançar em barcos, lanchas comerciais
e ferry boats. Quem é das águas sabe o que é isso. A vida nas marolas é parte
de quem circula pelo mar, pelos rios, pelos lagos, pelo Pantanal.
Mas existe um outro balanço que nos faz flutuar e esse depende do ar, da
terra e do sonhar. É o balanço da dança, que faz da vida uma festa, um carnaval
de alegria. E foi nesse remelexo que descobri com quantos bailarinos se tece um
sonho. Feito os galos de João Cabral de Mello Neto, na coreografia dos
aprendizados, um dançarino sozinho não faz a manhã.
E a manhã se fez à noite no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande.
Cinquenta alunos da Luminis Escola de Dança (um grupo de graciosos dançarinos
de várias idades), sete professores e mais uma equipe de fiéis escudeiros, deram
corpo à sua versão de Cordel Encantado. Foram 14 atos graciosamente dispostos
ao longo de quase duas horas, misturando xote, baião, maracatu, tango, MPB e
salsa (ou era mambo?).
Mergulhei na encenação. Estava na dupla perspectiva de espectador e
aluno. Não, eu não dancei. Eu ainda não danço. Estava lá como parte do meu
processo de dança terapia. Sou apenas um aprendiz em estágio de gestação.
Estava entre cerca de duas centenas de outros encantados amigos, parentes,
incentivadores, amantes, amados.
Fomos presenteados com belíssimas exibições, acolhidas com amor, carinho
e orgulho. Voltei aos tempos em que assistia às encenações dos meus filhos na
escola. Ou quando assistia aos espetáculos da prima da minha ex-mulher em sua
escola de balé. É preciso desenvolver generosidade nesses momentos. E a gente
aprende.
Porque, mais do que degustar o produto de horas e horas de ensaios, quem
assiste a espetáculos como esses aprende a assistir. Afinal, cultura é isso: é uma troca, é um
acordo, é uma construção. E como tudo na vida, é uma atividade cheia de erros e
acertos, de cair e levantar, de superar, ultrapassar, vencer.
No centro do espetáculo estavam a princesa Jesuína, herdeira de um reino
distante, e a cangaceira Açucena, flor do sertão nordestino. Um par de lindas
mulheres que descobre o amor verdadeiro e entrega aos espectadores a graça e a
beleza do amar sem medo.
Que lindos são os seres capazes de emocionar as gentes nestes tempos tão
difíceis em que o amor é tratado como mercadoria. Tempos fluidos superados pelo
amor de alguns, que ainda conseguem confeccionar espaços do mais puro
aconchego.
Em um curioso entrelaçamento de fitas, chitas e rendas, o sertão foi ao
pantanal. E o mar virou sertão. Porque o balanço dos sonhos embala a todos nós,
como as marolas da minha meninice. E renascemos todos da água benta de todos os
santos e orixás em um espetáculo feito do esforço coletivo, que sempre vale
mais do que a tristeza líquida da solidão.
Na noite do Cordel Encantado, Açucena, Jenuína e seus amigos celebraram
a cerimônia do amor da tolerância, da beleza e do aprender permanente. Fomos
privilegiados por ainda poder experimentar essa belezura.
Porque a música e a dança vão nos redimir no batismo das águas.
De um agradecido aprendiz,
Maurício Cintrão
PS: a bailarina da
caixinha de música eram duas e eu não sabia (leia o texto “Ensinando a nadar”).

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