Vez por outra, as
antigas colegas da dançaterapia mandam mensagens para avisar sobre atividades
na escola de dança. De quebra sempre vem um “saudade”, “reaparece”. É
lisonjeiro, claro, e massageia o coração. Até porque são meninas com, no
máximo, metade da minha idade (acho que nem isso). Não enxergo nenhum outro
interesse que não o da companhia, da presença e, às vezes, dos textos que
escrevi enquanto estava lá.
A dançaterapia foi um
processo muito rico. Destravou vários sentimentos em mim. Abriu muitas portas
para novos sentimentos. Mas se encerrou por conta da repetição. E um outro
tanto por culpa das consequências dos exercícios em meu corpo carente de
movimentação. Desde que parei o pilates,
há cerca de dois anos, não fiz mais exercícios. Sequer tenho caminhado e quando
caminho eventualmente dói tudo.
Por conta da
dançaterapia passei a exercitar boa parte da musculatura. Como nas meditações
do tantra, senti músculos e fibras que jamais imaginei que tivesse. Fui para o
pilates, aliás, porque o cardiologista recomendou atividade física para
fortalecer a musculatura. Levantar peso em academia está longe de ser uma
escolha minha. E aquele público narcisista e exibido não me interessa.
Na dançaterapia
percebi que, como no pilates, poderia ter uma alternativa de movimentação dos
músculos com mais inteligência e sensibilidade. Mas coloquei muita expectativa
em cima daquelas práticas e acabei me decepcionando. Daí parei. Dores nas
costas e nos joelhos também pesaram. Mas a falta de uma atenção mais focada nos
meus sentimentos e no meu histórico contribuiu para o desânimo e o abandono.
Voltei a escrever inspirado na dançaterapia. Mas o processo bailarino não
acompanhou minha evolução intelectual e poética.
Uma amiga de curso que
eu encontrava eventualmente em eventos do espaço de dança mandou mensagem
fazendo convite para uma festinha “anos 60” da escola. Agradeci e disse que não
danço nada (e não danço mesmo, esse foi um dos motivos de buscar a terapia
dançante). Mas vai ser legal, eles vão ensinar os passinhos da época. Gelei.
Coreografia é o que eu mais temo. Por algum motivo histórico, me considero uma
negação em termos de coordenação motora para danças coletivas. Travo, entro em
pânico, não consigo.
Preciso encontrar
outro espaço (ou outras práticas) para continuar minhas pesquisas dançarinas.
Talvez em aulas particulares, em separado. Talvez em processos como as
meditações ativas do Osho e vivências corporais mais profundas, feito a
massagem tântrica, que eu tanto estudei. Qualquer que venha a ser o caminho,
preciso recomeçar, “como as manhãs e epidemias”, escreveu Aldir Blanc.
Porque a evolução
pessoal passa pelo corpo. E novas conquistas dependem do enfrentamento a esses
traumas que me limitam e me impedem de viver feliz. Os cuidados das minhas
antigas colegas de dançaterapia, que sempre mandam recadinhos carinhosos e convites
simpáticos, vão sustentando o quentinho que me mantém seguindo. Porque elas
estão evoluindo, crescendo e conquistando suas felicidades (tenho visto pelas
mídias sociais).
Ao olharem para mim,
transferem um pouco dessa energia. Sua atenção comigo com afagos digitais
refletem sua identificação com meu esforço em sair do pântano das dificuldades
corporais. E isso é muito importante. Mais do que lisonjeiro, isso é sinal de
vida, é sinal de reconhecimento. Por isso sempre respondo: hora dessas reapareço.
mauricio.cintrao@gmail.com

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