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Respirar feliz

Meus amigos monges dançam em Guararema, felizes. Nem sei se existem monges tristes. Sei, sim, que meus amigos são felizes e, não por acaso, monges. Eu os conheci durante um curso de imersão de 15 dias em Tantra.

No começo, fiquei até meio incomodado. Porque monge budista gosta de yoga. E eu não me dou bem com posturas yogi. Advinha se eles não davam aulas de yoga pela manhã. Uns chatos, eu pensava. Mas fazia os exercícios, implorando para acabarem logo.  Quando falei isso para eles, riram.

O corpo reclama alto do esforço exigido pelas posturas. Dói, arde, lateja. Quase nunca consigo fazer o exercício conforme indicado pelo instrutor. Ele se estica como se fosse um gato. Eu me estico como se fosse um armário. Com a prática, a gente até acostuma. E vai ganhando elasticidade para esticar cada vez mais.

Não faço exercícios de yoga há mais de ano. E meus amigos monges continuam esticando gente por aí. Estão em um espaço de práticas holísticas, o Spandha.se, localizado às margens do rio Paraíba do Sul. O próprio rio é um exercício de yoga por excelência. Flui lentamente, inexorável, sereno, imenso, quase silencioso.

As águas e os seres humanos não são completamente silenciosos. Fazem um esforço enorme, mas não conseguem passar despercebidos. Rios e gentes barulham, cada um a seu jeito. E passam, sem nunca se repetir. O rio evolui sobre si mesmo e não volta. Humanos podem até voltar mas nunca são os mesmos.

Meus amigos monges estão lá, do ladinho do rio, ensinando pessoas a respirar. Parece brincadeira o ensinar a respirar. Afinal, respiramos desde que nascemos. Mas não sabemos respirar. Inalar o ar conscientemente é um processo espantoso de autodescoberta.

Ao exercitar a respiração consciente, você inspira e expira em ritmos variados, em tempos variados e em intenções variadas. E invariavelmente descobre que não sabia respirar. Ainda bem que descobriu. Pois o corpo bem respirado é outro corpo, é outra mente, é outro espírito.

O bruxo Deva Nishok costuma falar “respira com intenção que acontece”. Respirar pensando no que se deseja é meio caminho para mobilizar as energias da realização. Quando a gente aprende a respirar, aprende a fazer acontecer.

Meus amigos monges estão lá no Spandha.se, em Guararema. E são caras tão de boa, que não limitam sua ação ao que sabem. Descobrem novidades em todo lugar. Agora, por exemplo, aprendem a jogar box e a evoluir na capoeira. Monges budistas são polidivertidos, polifelizes, poliviventes.

Os monges brincam de rio e nunca se repetem, como as águas do Paraíba do Sul que dão a volta, percorrem o Cone Leste de São Paulo e vão animar o Sul Fluminense, descendo a serra e desaguando no mar. O Paraíba do Sul é como os monges. Está sempre se reinventando e segue ao sabor das correntes do dia, das evoluções do momento.

Viva o rio, viva os monges. Viva a alegria de respirar feliz.

mauricio.cintrao@gmail.com

Comentários

  1. Gratidão pelo carinho amado amigo.
    Meu amigo Cintrão é grande e gentil, carinho e atencioso, dança muito bem e é alegre.

    Gratidão pelo carinho amado amigo.

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