Procuro olhares. Olhares que fazem carinho, que afagam, que encantam. Como o que recebi da mulher loira na entrada do Mercadão, domingo pela manhã. Ela comia pastel com um parceiro. Ele estava de costas, não me viu. Mas ela viu, sim. E notou que percebi. Assustada, desviou os olhos. Mas voltou a me olhar. Talvez tenha visto mais do que eu mesmo reconheço mostrar. É tão bom ser olhado assim. É um presente, é um carinho. Mesmo que não tenha sido essa a intenção. Muitas pessoas ignoram o efeito do próprio olhar. Olham disfarçadamente, como a loira do Mercadão, e nem notam que abriram o próprio coração. Quase sorri para ela. Mas acho que seria invasivo. Há pessoas que olham mesmo, com gosto (ou com intenção de mostrar que olham). Em alguns casos são agressivas. Mulheres comumente são assediadas assim. Sabem direitinho qual é o olhar violador, desrespeitoso, que mede e julga. Mas nem sempre o olhar incisivo é violento. Existem olhares interessados que são só isso, interessados e p...