Dançar é mais do que movimentar o corpo. No meu caso é movimentar um caminhão cheio de memórias endiabradas. É uma verdadeira mudança de casa dentro de uma coqueteleira gigante. Onde quer que eu vá dançar, levo toda a história de traumas, vergonhas e assombros. Nesses momentos, sou o cenógrafo do meu drama. Levo tudo empacotado: cenário, iluminação, trilha sonora e fumacinha. Mas chega tudo bagunçado. Mesmo que eu não vá. A simples perspectiva de ir desarranja tudo. E provoca uma série de reações que resseca minhas juntas, envenena meu quadril e desequilibra meu centro. Beber duas ou três doses de álcool etílico sempre foi uma forma de enfrentar o medo. Li em algum lugar que deus inventou o álcool como lubrificante social. O problema é que depois do segundo whisky (ou cuba libre, ou cachaça com guavira, ou...) eu perco o controle. E a dança vira luta livre com cotoveladas, pisões nos pés, bundadas e outros. Eu tenho consciência de que isso não pode continuar. Já ensaiei div...