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Dançar pode ser

  Dançar é mais do que movimentar o corpo. No meu caso é movimentar um caminhão cheio de memórias endiabradas. É uma verdadeira mudança de casa dentro de uma coqueteleira gigante. Onde quer que eu vá dançar, levo toda a história de traumas, vergonhas e assombros. Nesses momentos, sou o cenógrafo do meu drama. Levo tudo empacotado: cenário, iluminação, trilha sonora e fumacinha. Mas chega tudo bagunçado. Mesmo que eu não vá. A simples perspectiva de ir desarranja tudo. E provoca uma série de reações que resseca minhas juntas, envenena meu quadril e desequilibra meu centro. Beber duas ou três doses de álcool etílico sempre foi uma forma de enfrentar o medo. Li em algum lugar que deus inventou o álcool como lubrificante social. O problema é que depois do segundo whisky (ou cuba libre, ou cachaça com guavira, ou...) eu perco o controle. E a dança vira luta livre com cotoveladas, pisões nos pés, bundadas e outros. Eu tenho consciência de que isso não pode continuar. Já ensaiei div...

Novo patamar

  Estou no durante. É um processo de transformação. Mesmo que pareça, entretanto, não implica em metamorfoses colossais. Não virei monstro, ou fada do dente. Estou um ser humano buscador de possibilidades. Saí da fase de tentativa e erro e migrei para o universo do “isso eu ainda não conhecia”. É excitante, é desafiador e é de dar medo, muito medo. Porque as grandes mudanças começam pequenininhas, despretensiosas, e viram furacões na vida das pessoas. De repente, você vira indígena, mago, ancestral de muitos, mestre. As descobertas essenciais mudam o lugar da gente no mundo. E a gente muda junto. Ao ultrapassar uma barreira do medo e do trauma, você floresce, gera luz. Com isso, passa a ocupar um lugar diferente para você e para as pessoas. Vira referência. Senta em uma poltrona destinada a quem chegou até ali. E não espere conforto. Alcançar aquele nível é ampliar o espectro de ameaças e riscos. Toda evolução descompensa. É um toma lá dá cá o tempo todo. A vida não tem inter...

Dança dos sobreviventes

Dança dos sobreviventes Olhar casais bailarinos dançando me encanta.   Pensar em entrar em um curso de dança me aterroriza. Ainda vou descobrir porque tenho tanta dificuldade com a dança. Fui percussionista. Sou bom de ritmo. Tenho bom gosto para a música. Mas fico todo duro quando a proposta é dançar. É histórico, é milenar. Só não é ancestral. Meus pais gostavam de dançar. Entre meus irmãos, acho que só eu não danço. Tenho um livro de crônicas em que narro essa dificuldade. Chama-se “O gordinho e a menina de rosa”. O caso é que surgiu uma vivência de dança terapia e consciência corporal no final de semana. Resolvi ir.   Não foi à toa. Minha terapeuta (que tem psique dançarina) sapecou um Guimarães Rosa diante das minhas dúvidas. A vida, disse ela, quer da gente é coragem. (“ O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Grande Sertão: Veredas.) Fui com medo,...

Olhares que encantam

  Procuro olhares. Olhares que fazem carinho, que afagam, que encantam. Como o que recebi da mulher loira na entrada do Mercadão, domingo pela manhã. Ela comia pastel com um parceiro. Ele estava de costas, não me viu. Mas ela viu, sim. E notou que percebi. Assustada, desviou os olhos. Mas voltou a me olhar. Talvez tenha visto mais do que eu mesmo reconheço mostrar. É tão bom ser olhado assim. É um presente, é um carinho. Mesmo que não tenha sido essa a intenção. Muitas pessoas ignoram o efeito do próprio olhar. Olham disfarçadamente, como a loira do Mercadão, e nem notam que abriram o próprio coração. Quase sorri para ela. Mas acho que seria invasivo. Há pessoas que olham mesmo, com gosto (ou com intenção de mostrar que olham). Em alguns casos são agressivas. Mulheres comumente são assediadas assim. Sabem direitinho qual é o olhar violador, desrespeitoso, que mede e julga. Mas nem sempre o olhar incisivo é violento. Existem olhares interessados que são só isso, interessados e p...

Coração agradecido

Ontem, participei como artista de outra mostra Sarau de Segunda. Desta vez foi no Laricas Cultural, um espaço de difusão de arte que eu desejava conhecer há muito tempo. Foi muito legal. Mais uma vez, deixei de ser espectador para virar protagonista.  Enquanto estava lá, com a minha banquinha de exposição, lembrei da Mariana Azambuja, que frequentava com graça e beleza espaços como aquele. Mari foi vencida pela Covid 19 há menos de um ano. Deixou a todos nós perplexos.  Quando se perde uma pessoa querida, o buraco é enorme. Mas quando se perde pessoas que atuam no coletivo, a perda é quase institucional. A Pandemia fez isso. Destruiu famílias, esburacou relações e demoliu referências.    Conhecida no mundo das verdades holísticas como Deusa de Mim, ela era terapeuta tântrica, incentivadora do uso de brinquedinhos eróticos e orientadora sexual. Estudava Psicologia. Era meiga, tinha sorriso cativante, fala mansa e abraço de ursa. Eu era seu cliente eventual de ma...